Carta ao meu amigo

 

É muito difícil perder um amigo. Um amigo que você tem certeza que é seu irmão. Além de duplamente compadre, porque você é madrinha da filha dele e ele padrinho da sua filha. Que falta você vai me fazer Zeca… Quanto aos outros eu não sei meu irmão. Mas quanto à mim posso dizer, o quanto me custará viver neste planeta sem você. Tantas coisas me ensinou. Um amigo que eu tinha certeza que me amava e ele também tinha essa certeza do meu amor e da minha amizade. Somos irmãos, somos iguais, somos do mesmo grupo de pessoa, temos a mesma natureza Joana. Ele dizia. A gente se entende. Sensível. Espírito de índio mesmo. Guerreiro. Ah, poderia trocar ouro por amor. Seus valores eram fortes. Falava pra mim, Ju, tenho uma coisa pra te falar e vou falar só pra você por que eu ouço muito você. Ele me pedia, pode me aconselhar, pode brigar comigo, pode me dar esporro. Eu só ouço os seus esporros. E ele foi o melhor amigo. Aquele que eu perguntava quando estava precisando, Zeca, isso vai passar, e ele dizia bem afirmativo: claro Joana. Pronto, já tava passando. Ao mesmo tempo que me pedia conselhos, também tinha uma vivência enorme, absurdamente ampla e linda, capaz de ver a situação alheia por um prisma que ninguém enxergava. Por isso, as vezes quando eu me sentia afogada num copo d´água ou afogada num oceano, ele me puxava pra cima e me mostrava onde eu estava. Me situava. Me mostrava o contexto, da minha vida, da minha história, do meu cenário, enfim, do meu lugar no mundo. Era confortante, sabia analisar as situações como ninguém e vislumbrar tantas saídas, tantas formas de enxergar tudo. Sabia valorizar o outro. Era amplo, era vasto. Era culto. Me ensinava história, geografia, espiritismo e outras mil doidices. Era engraçado e tinha um senso de humor adorável. Era grande. Meu amigo. Zeca eu preciso de você. Você não cuidou de si mesmo. Mas cuidou de tanta gente. Quem quis seu amor teve. Sua vida foi linda e intensa. Hoje não vou analisar os porquês, o que foi certo, errado, verdade ou não. Eu acho que sei amigo, bastante da sua vida. Sei dos seus defeitos. Como você sabe dos meus. E não sou ninguém pra julgar nada. Quero lembrar de você, do Zeca que eu amo. Solidariedade foi e é sua maior virtude. O outro ele carregava no colo se pudesse. Dividia, ajudava, se desdobrava em mil sem medir esforços para ajudar um amigo. Gostava de ver o outro crescer. Deus te chamou Zequinha. E você como um bom espírita com certeza está bem. Acho que você já queria ir. Eu sei que você andava triste aqui na Terra, com algumas pessoas, eu sei disso amigo. Agora, aceite sua nova condição. Aceite sua nova jornada, por que aqui, acho que já tinha dado para você. Espero que esteja feliz e empolgado. Cheio de planos e idéias como sempre. Só te peço uma coisa: não me deixe nunca e continue cuidando da gente como você sempre fez. Sua lembrança sempre estará presente nesta família, que você faz parte. Você sempre terá seu lugar na casa dos meus pais, que como você dizia, não é uma casa, é um espaço cultural (risos). O lugar onde você se sentia feliz, como gostava de afirmar. Seu porto seguro. Seu lar. Aqui você sempre será lembrado. Você faz parte da nossa história. Um beijo da sua amiga que te ama.  Joana.


O Clube!

 

Voltei ao Clube da Imprensa sem esperar mudanças. Foi no início de 2010. Sabia que não ia ter melhorado ou piorado muita coisa. Mas realmente o vazio, a falta das pessoas apertou meu peito. É muito difícil em Brasília conviver com a seca. Ficamos a mil e tantos quilômetros de distância do mar. Nas cachoeiras mais próximas vez por outra aparece um povo esquisito que toma conhaque no sol e leva pitbull pro passeio. Tem a Água Mineral que só dá pra ir durante a semana, pois fim de semana fica intransitável, ou seja, difícil pra quem trabalha. Os clubes, em geral, tem aquela cara brega de novo rico, fora que são caros para se freqüentar. Quando há tempo, temos Pirenópolis ou a Chapada. Quando não, só nos resta filar uma piscina na casa de algum amigo ou parente, caso não se tenha uma em casa. Foi por isso que tentei ir ao Clube da Imprensa.

Fazia anos que eu não ia ali. O que me incomodou não foi a decadência da falta de manutenção, mas o silêncio. Quem freqüentou o Clube da Imprensa sabe do que estou falando. Sempre foi daquele jeito, duas piscinas sujas e quentes de xixi, pouca variedade de comida e muita de bebida, um espaço gigante e mal aproveitado e um parquinho enferrujado. Mas a alegria e liberdade que imperavam ali superavam qualquer coisa. Durante a semana era à noite que o pau comia. Sempre tinha futebol dos homens, a mulherada ia para a sauna e vez por outra tinha algum evento e a meninada acompanhava. Era como uma família gigante. De dia as crianças, que eram muitas, brincavam soltas e misturadas. A piscina de adulto era povoada por pirralhos, numa mistureba total. Sem protetor solar, sem bóia nos braços, andávamos pelos cantos da piscina sem babás por perto. Havia uma convivência intensa entre as pessoas que pareciam morar naquele clube aos sábados e domingos. Todos os pais tomavam conta de todos os filhos. A gente se metia no churrasco de um e de outro nas cabanas, tinha almoços coletivos na casona de madeira, festas no galpão, no bar em cima eram várias mesas juntas, todo mundo misturado numa grande esculhambação. Música, risadas altas, muita cerveja, todo mundo molhado, fumando cigarro em qualquer lugar, um entra e sai no barzinho de adultos e crianças (ninguém sabia quem mandava no bar), todos numa grande turma, sem divisões. Todos se conheciam. A sauna era uma só (sauna seca, sem restrições de maconha). Entrava adultos, crianças, homens e mulheres (se duvidar até o Gererê, um basset que freqüentava o clube). Ao fim do dia íamos ver vagalumes na beira do lago lá no clube mesmo, depois não era raro a gente ficar cochilando no carro quando nossos pais emendavam algum jogo de cartas. Havia as festas juninas com o Dominguinhos, mil festas de crianças, shows, encontros para escolher as músicas e pintar as faixas de protesto do Pacotão, dentre outras tantas atividades malucas que os jornalistas da velha guarda inventavam. E nós crianças pelo meio. Até hoje tenho amigos que fiz ali. São pessoas que fazem parte da minha vida com uma intimidade diferente, meio que família também.

Quando fiz essa última visita ao Clube eu sonhava com um possível retorno. Imaginei até que fosse ter uma turma de novos jornalistas com seus filhos. Fui numa tarde de sábado com minha filha e meu marido. Helena subiu no mesmo balanço de cavalinho que eu gostava. Brincou em tudo, no trepa trepa, na tartaruga gigante que roda, se divertiu sozinha, não havia vozes, risadas, gritos de crianças nem música. Só se ouvia os passarinhos. Minha garganta numa certa hora doeu, de tanto me segurar pra não chorar. Senti saudade das pessoas, tristeza de ver o clube vazio e emoção de ver minha filha sentada num brinquedo que eu usei tanto. Já era previsível, não sei o que eu esperava. Na verdade eu sei, esperava uma continuação, uma tradição. Mas não foi o que eu achei. Sim, mas a vida é assim, a gente tem expectativas frustradas. Quem sabe em 2011, com essa nova Chapa, quem sabe muda alguma coisa… quem sabe renasce um novo clube com o clima tão bom como o que já teve. Que venha 2011. E boa sorte Clube.


I’m just a jealous guy, até Jonh Lennon assumiu

Certa vez no Maranhão, eu estava com meu marido conversando numa mesa com algumas pessoas. Estavam sentados ali eu e Ricardo,  o Del dono da pousada, o Maciel um amigo guia, o Tuca um menino de uns 12 anos morador dali (muito divertido) e um pescador tatuado meio coroa com sotaque latino. Era uma pousada pequena e muito simples, bonita, rústica e bem a cara das casas daquele povoado, com muita palha e madeira. Estávamos no meio dos Lençóis Maranhenses, num lugar onde todo o solo é de areia. Uma pequena vila, isolada. De repente chega um homem alto e forte, sem blusa, só de chinelo e bermuda. Nativo. Os dois amigos que o conheciam na mesa o apresentaram apenas para o Ricardo. O homem sentou, pegou um copo, se serviu de cerveja e entrou no bate papo. De repente vem lá de dentro a ajudante do dono da pousada. Uma mocinha pequena, magrinha, adolescente, devia ter por volta dos seus dezesseis anos, mas assim, já com cara de mulher que sabe fazer tudo que uma mulher faz naquele local, além de cuidar da família. Se aproximou calada e tímida, como se fosse um fantasma, sentou ao meu lado, na beira do banco de madeira e ficou ali quieta. Não olhou pra mim nem tampouco entrou na conversa. Ali ficou apenas prestando atenção aos assuntos masculinos, quase igual ao que eu fazia. Eu acabei me entretendo com o Tuca, num bate papo paralelo. E a menina ficou ali sentada bem em frente aos homens, ouvindo a conversa atentamente. Poucos minutos depois que aquele nativo enorme entrou e sentou ali, veio atrás dele sua mulher. Apareceu rápido, como que surgiu do nada e parou na frente da nossa mesa. Com a cara bem séria que algumas maranhenses têm, vejam o que ela disse para seu marido (esqueci de dizer que ela também era bem pequena e franzina, como a adolescente que se sentou a mesa): “Eu estava te procurando fulano. Estou ciumando de ti.” Depois olhou pra menina e disse: “Fulana levanta daí. Se eu te pegar olhando pro meu marido de novo eu furo teus olhos”. Todos ficaram em silêncio, mas sem cara de choque. Momentaneamente o assunto parou. A esposa virou as costas e saiu da pousada. Os homens continuaram a conversa. A menina muda se levantou e voltou pra cozinha. O marido tomou mais um copo de cerveja já em pé, disse tchau e saiu. Ninguém estranhou nem comentou. Ele foi embora e o bate papo continuou sem que ninguém comentasse o fato.


Uma Dilma que não é a Roussef

 

Edvard Munch

(Obs: Postei de novo este texto em homenagem a nossa Presidenta, espero que ela cuide destas pessoas.)

Eu estava saindo do Extra e vi do lado de fora a Dilma e a mãe dela. A Dilma de franja reta, meio índia. E me lembrei da história dela. Ela mora na rua e vive de pedir esmolas e catar restos nas lixeiras, não só para vender como para comer, como já observei. A mãe dela também vive por ali, mas elas são meio brigadas. Estas informações são vindas das pessoas que freqüentam a casa da minha mãe na 716 norte. Quem mora em casa, na Asa Norte então é muito comum, convive com moradores de rua de perto. Muitos deles vivem por ali desde que somos crianças. Então a gente vai sabendo os nomes deles (e eles os nossos). Dos filhos deles que nascem também. É muito comum a gente sair de casa e eles estarem na porta, ao lado, sentados sozinhos, ou em dupla, ou em grupo, nos meio-fios. Aos sair eles dizem oi. Quando temos tempo ou estamos mais sensíveis até conversamos mais do que um oi. Minha mãe sempre dá comida, não me importa se isto é correto ou não (ela diz). São muitas histórias e pessoas, mas vou contar de algumas, depois finalizo com a Dilma. Vou contar de uma moça da idade da Marina, minha irmã, mas que parece o dobro. Ela tem uma penca de filhos. Andam todos num carrinho tipo caixote de madeira, que ela puxa. Vimos todos nascer e todo ano chega mais um, é incrível. A mais velha já tem um filho (ela é adolescente). Ela está presa e o bebê com a avó (no caso). Nunca decorei o nome desta senhora. Ela é muito sorridente, quando passamos ela e todos os filhos dão tchau e agora, gritam “Manda um beijo pra Helena”. Além dos nossos nomes, ela sabe o nome dos nossos filhos e ensina pros dela. Será uma política de boa vizinhança? Ela é um amor. Tem também o Adeilton. Um jovem da minha idade. Negro. Agora sem um dente na boca e completamente alcoólatra. E parece muitíssimo mais velho do que é. Ele é um que freqüenta ali há uns 30 anos (sim eu estou com 34). Ainda novinho meu pai investiu um pouco nele. Prometia todo ano o material escolar completo e cumpria. O Adeilton era bem bonitinho. Uma criança negra com cara de africana, bem escura mesmo, os dentes lindos e um olhar doce. Ele ainda tem um olhar doce. De repente ele cresceu. Moravam todos ali atrás da antiga Escola Alvorada numa invasão na época conhecida como Cerrado. Então tinha uma turma de crianças que andava na minha rua. Éramos todos amigos, andávamos de carroça às vezes com eles, brincávamos na rua. Lembro uma vez que uma vizinha passou a tarde no jardim tirando os bichos de pés deles. E as outras crianças que moravam nas casas assistindo. Outra vez morreu uma égua de um deles, do Décio, no jardim da minha mãe. Ela estava prenha. Foi comovente vê-la deitada na grama, respirando ofegante, com a barriga enorme e os bombeiros do lado. O Décio e outras crianças ao redor (inclusive eu) aos prantos. Depois estas pessoas foram transferidas pelo governo do Roriz para Samambaia, uma cidade satélite criada há uns anos aqui no DF. Muitas destas crianças que freqüentaram a rua continuam sempre ali pela 716, perambulando, agora adultos é claro. Fizeram dali um ponto de mendicância ou de referência, sei lá. Vimos eles crescerem. Eles apareciam de carroça. Íamos sabendo notícias por eles mesmos, um matou um cara por causa de uma dívida de um tênis, que o outro estava atrás. Muitos foram presos. Marina minha irmã visitou um deles na Papuda uma vez. O outro trabalhava numa oficina perto mas eu sabia que vendia armas. Uns casaram e estavam bem, morando em Samambaia. Eram muitas notícias, das mais diversas e inusitadas. A mãe de um deles a Dona Rita, começou a vender doces num ponto da cidade que até hoje é dela. Ela foi faxineira da minha mãe. Hoje vende balas no sinal da W3 sul perto da FUNAI e da Escola Dom Bosco. Eu passo lá compro dela, às vezes não dá e eu buzino de longe, ela sabe que é alguém lá de casa e dá tchau, tão bonitinha com a cabeça branquinha. Um dia ela enfiou a cabeça no carro e me deu um beijo. E pasmem, muito cheirosa. O Ricardo tomou um susto e depois comentou achando até graça “Nossa Joana vocês da sua casa conhecem todos os mendigos de Brasília.” Muitos ele conhece também, como bom morador da Asa Norte. Pra finalizar (estou percebendo que não consigo escrever pouco), vou contar resumidamente o final trágico da Dilma. Ela freqüenta há uns dez anos a região do final da Asa Norte. Quando apareceu por ali, magrinha, o rosto bonito, um olhar forte e esverdeado, ela puxava assunto de uma forma mais lúcida. Dava pra confiar nela, no que dizia. Nos empenhamos até em ajudá-la. Ela e sua família moravam numa tenda de lona ao lado do Caje (onde menores infratores ficam presos), próximo à casa dos meus pais. Às vezes estava muito bêbada (hoje está sempre). Tinha cinco filhos. Hoje não tem mais e eles não morreram. Seu irmão foi assassinado ao lado dela. Era seu braço direito. Isto a desequilibrou mais ainda. Todo um longo e doloroso processo a fizeram perder a guarda de todos os seus filhos. Eles foram adotados, com exceção do Fabiano um mais velho, que fugiu do lar ou não quis ficar lá não sei. Já era pré-adolescente, esperto. A Estefani, sua única menina, foi a primeira a sair do lar pra ser adotada. Foi separada dos irmãos. Fui com meu pai algumas vezes ver as crianças neste orfanato no Núcleo Bandeirantes. A própria Dilma me disse o nome do lugar onde eles estavam e eu descobri o endereço. Eles foram tomados pelo Conselho Tutelar. Ela realmente teve chances para mudar. Ouvi dizer dela e do próprio orfanato, que é da Comunhão Espírita, que ela ganhou uma casa. Mas não conseguiu administrar sua vida e perdeu tudo inclusive o Pátrio Poder dos filhos e agora sua lucidez completamente. Quem deveria cuidar dela? O que acontece com essas pessoas? São almas loucas, espíritos perdidos, em busca de Deus ou de luz, jogados neste planeta como mortos-vivos em busca de regeneração? Não sei. São explicações que acho pra me confortar. Sei que hoje vejo Dilma por aí. Sempre ao lado da mãe, as duas bêbadas tresloucadas, não raro brigando, batendo boca, se xingando com ofensas e palavrões. E outro dia vi uma cena inusitada, de carona com meu pai que naquele dia me buscou no trabalho, nos deparamos com as duas descendo a rampa do Congresso Nacional em direção à chapelaria, entrada principal. Era um dia normal, as duas estavam imundas e uma delas carregava uma enorme bandeira do Brasil nas costas. Estávamos dentro do carro e elas não nos viram. Também não reconhecem mais ninguém. Observamos elas descendo em fileira, uma atrás da outra. A Dilma por último levando a bandeira. Um sol escaldante. Será que elas conseguiram entrar?

(18/02/10)


Quem disse que as bonecas não dormem?

 

Já era tarde, hora da Helena dormir, mas ela estava eufórica com a boneca nova que eu comprei usada da minha querida amiga Carol Cambiaghi. A tal da Baby Alive, boneca cara que só. Fala, come de verdade, faz cocô. Você precisa comprar uma comidinha que vende nessas lojas famosas de brinquedos. Imagine, comprar comida pra boneca. Fala sério. Bom, o fato é que ela amou a boneca. Estava sentada na cama de pijama com sua nova filha no colo. Os olhos baixos, bocejando sem parar, mas firme, querendo resistir. Tentei demovê-la: Lelê por hoje já chega, amanhã você brinca mais, vamos pôr a boneca para dormir ali no carrinho porque você precisa dormir e eu também. Ela rebateu: Tá bom mamãe, mas ontem ela dormiu de olho aberto porque estava sem pilha coitada, agora, ela vai ter que dormir de olhos fechados. Ai meu Deus, pensei. Mas ok, vamos lá. O lance é que a boneca é uma peleja. Fala um texto imenso, faz mil gracinhas, depois dorme, ronca, acorda e começa tudo de novo. Então a gente combinou assim, eu ficava com a boneca no colo, ligava e quando chegasse a hora do ronco, desligaria pra ela dormir de olho fechado. Mas a maluca da boneca tem um botãozinho de borracha meio molinho, difícil de sentir no tato, muito estranho. Você toca e ele não funciona na hora, sei lá. Ou eu não estava tendo a manha. Aí a  boneca começou: Mamãe gosto muito de ti (gente a boneca é gaúcha, eu disse às gargalhadas). Helena com sono já meio irritada, querendo chorar falou, pára mamãe, presta atenção pra desligar na hora certa. Aí lá foi a boneca, pediu comida não sei quantas vezes, pediu beijo, abraço, água, pediu pra limpar o cocô (não tinha cocô pra limpar, não tinha comida, isso facilitou naquele momento), cantou, riu, chorou, até que bocejou várias vezes e roncou. Ufa. Fechou os olhos. Helena então falou, quase num grito, desliga mamãe antes que ela acorde. Quando eu toquei no botãozinho, a boneca arregalou os olhos, deu uma risadinha e disse: olá mamy! Helena se estressou. O que você fez mamãe? Ah não, agora vai demorar um tempão pra ela dormir de novo. Você ligou mamãe e não desligou. Eu expliquei, não Helena, não sei o que houve filha. Olha, é melhor você controlar o botãozinho, sugeri. Ela já querendo chorar, pediu: não mamãe, eu tenho que ficar olhando pra ela, eu é que sei a hora certinha que ela vai fechar os olhos, é melhor eu falar já e você desligar. Ok, aceitei tentar mais uma vez. Imagine a novela. A boneca iniciou toda a ladainha de novo e na hora H, parecia brincadeira, deu errado e a doida de novo arregalou os olhos rindo: olá mamy! Jesus, a Helena caiu aos prantos no travesseiro, eu tive uma crise de riso, tentando acalmá-la, mas ela ficou irada com a situação. Revoltada, me olhou séria e disse que não ia dormir com a boneca de olhos abertos, que a boneca precisava descansar e fechar os olhos. Eu fiquei sem argumento. Coloquei as regras, já meio brava: Helena, eu vou tentar pela última vez, se essa boneca não ficar de olhos fechados quando eu desligar, eu desisto e você vai dormir assim mesmo. Ela ficou parada em frente a boneca. Eu com a teimosa no colo. As duas sentadas em cima da cama, de pijama, exaustas com aquele brinquedo frenético. A boneca disparada, falando sem parar, Helena caindo de sono com as lágrimas rolando no rosto e eu tensa, mentalizando e rezando pra dita cuja ficar de olhos fechados no final. Desliguei e deu certo. Ufa!! Helena deu um sorriso feliz entre as lágrimas. Ai que alívio eu disse. Coloquei ela no carrinho de bebê. Helena sonolenta ainda pediu: por favor mamãe, deixe ela dormir na cama de cima, ela ainda está se acostumando aqui em casa, eu quero que se sinta bem. Deixei. Recostei-me ao lado da minha pequena maluquinha, viajandona, criança de tudo, pra descansar a coluna alguns segundo antes de apagar a luz. Pisquei os olhos e quando dei por mim Helena já estava dormindo profundamente. Beijei-a. Ela deu um longo e aliviado suspiro. Me levantei devagarzinho, olhei a boneca dormindo de olhos fechados no carrinho. Estava tudo certo. Apaguei a luz e fui pro meu quarto dormir. Amém.


Divertidos demais

 

Toy Dolls


João controle e descontrole

 

Estate, na voz de João Gilberto. Roma 1983. 

   

Estate

Verão

   
Estate sei calda come i baci che ho perduto Verão, és quente como os beijos que perdi,
Sei piena di un amore che è passato és cheio de um amor que já passou
Che il cuore mio vorrebbe cancellare E que meu coração queria esquecer
Estate il sole che ogni giorno ci scaldava Verão, o sol que todos os dias nos aquecia,
Che splendidi tramonti dipingeva que esplêndidos crepúsculos coloria
Adesso brucia solo con furore E que agora me queima com agressividade
Tornerà un altro inverno E chegará outro inverno,
Cadranno mille petali di rose cairão milhares de pétalas de rosas
La neve coprirà tutte le cose A neve cobrirá todas as coisas,
E forse un po’ di pace tornerà e talvez um pouco de paz trará
Estate che hai dato il tuo profumo ad ogni fiore O verão, que doou seu perfume a diversas flores,
L’estate che ha creato il nostro amore o verão que criou nosso amor
Lavori eccellenti i legami di dolore.

 


Cuba. Por Joana.

 

Fui à Cuba em 1998. Fiquei hospedada na casa de uma típica cubana no bairro de Santa Catalina. Ela se chama Lourdes e seu filho Jorge. Lourdes trabalhava no departamento de turismo do governo cubano e seu filho fazia faculdade de medicina, hoje já deve ser médico. Eles me buscaram no aeroporto no carro de um vizinho. Minha primeira impressão ao sair do aeroporto pode parecer chavão, mas foi uma cena com cara de Cuba. Um calor absurdo, muitas pessoas amontoadas do lado de fora esperando os turistas, um cheiro de charuto no ar e muitos negros. Saí meio perdida e fiquei procurando alguém com o meu nome escrito. Encontrei a Lourdes. Loura com os cabelos curtíssimos, olhos claros e muito queimada de sol. Bonita, magra, mas uma pele com cara de mal tratada, judiada. Carinhosa me abraçou e fomos para sua casa.

Ela morava em um bairro nos arredores de Havana, com prédios de cinco andares e escadas pelo lado de fora. O estacionamento parecia uma exposição de carros antigos, mas eram os carros de uso dos moradores. Embaixo da portaria tinha umas ovelhas dormindo, amarradas a um poste. Ao chegar em casa ela serviu o almoço. Me disse que era uma comida típica de Cuba. Eram pamonhas, idênticas as nossas. Eu ri e disse que  também era típico no Brasil e falei como chamávamos. Depois do almoço, abri minha mala e ingenuamente lhe entreguei um CD do Caetano Veloso. Ela, com jeito, me disse que não teria como ouvir, mas que deixaria de enfeite na estante para quando surgisse a oportunidade. Perguntei se ela não conhecia alguém que tivesse um aparelho de CD e ela disse que infelizmente não.

À noite fomos ver uma novela cubana na casa de um vizinho. Era muito engraçada, o cenário pobre e a estória era numa floresta com uma filha de um lenhador. A sala estava simplesmente lotada. Me sentei no canto, no chão ao lado de Lourdes. A porta da casa estava aberta e algumas pessoas assistiam em pé. Todos conversavam alegremente durante a novela. No intervalo comentaram comigo sobre a novela brasileira, Mulheres de Areia, que estava passando em Cuba. Queriam saber quem ficava com quem, se o Tonho da lua morria e outros detalhes. E eu não lembrava de nada, nem quem era a boa, se era Ruth ou Raquel. Percebi durante os dias que passei ali, que as portas dos apartamentos ficavam todas abertas e que eles entravam um na casa do outro, a toda hora, como se o prédio realmente fosse uma casa só.

Sai com Lourdes algumas vezes para passear. Íamos de mobilete, seu meio de transporte. Certa vez fomos ao mercado semanal e voltamos com as sacolas penduradas ao guidon. Andar por Havana de mobilete foi a melhor forma de conhecer a cidade. A lambretinha vermelha andava devagar e Lourdes gentilmente fez vários passeios turísticos comigo, além de andar pelas ruas, entrando entre várias, onde eu senti total o clima deles: muita gente nas portas, grupos conversando, povo alegre, sentado nas calçadas, andando entre carros bem antigos, muitas motos com aquele lugar do lado acoplado e bicicletas. As ruas lotadas de pessoas. A maioria, negros. Fui algumas vezes numa loja de uma amiga de Lourdes. Era como uma cabana destas de teto de palha, com cara de praia. Dentro tinha roupas confeccionadas em Cuba, sorvete cubano e outras coisinhas, tudo de lá. A gente ficava lá papeando.

Também saí com seu filho Jorge, de ônibus. Fomos até o centro da cidade, onde eu ia comprar uma calça jeans, em um hotel, para ele. No caminho até a parada do ônibus percebi que nos canteiros das ruas crianças e adolescentes jogavam beisebol. Ficamos quase duas horas na parada. Perguntei que horas o ônibus passava e ele disse que não tinha como saber, teríamos que esperar. Entramos num ônibus com cara de carro de exército, com as janelas pintadas. Lotado, as janelas abertas e as pessoas penduradas. No trajeto vi que eles usam caminhão também como transporte coletivo. Loucura. No hotel não deixaram o Jorge entrar. Mostrei meu passaporte e disse que ele estava comigo, mas o segurança disse que não podia. Ele ficou do lado de fora me olhando pela parede de vidro. Tentei ir rápido, entrei numa loja, comprei a calça jeans, depois passei ao lado de um velhinho que ficava sentado dentro do saguão do hotel, numa mesinha, fazendo charutos. Comprei duas caixas para dar de presente, passei numa outra lojinha, comprei algumas garrafas de rum e sai. Voltamos de táxi, um carro preto bem velho. Ao chegar em casa ele experimentou o presente. Chegou na sala e eu e a Lourdes nos espantamos, pois estava enorme! Ai que tristeza me deu. Que absurdo, por que ele não pôde entrar comigo para experimentar? A Lourdes me conformou, disse que uma amiga ajustaria.

Apesar das dificuldades de se viver em Cuba, o que vi foi um povo que parecia feliz, mesmo com uma realidade absurdamente diferente. Me senti quase em outro planeta. Pessoas inteligentes, com muita cultura e informação, vivendo de uma forma muito simples. Na geladeira de Lourdes (que era bem antiga) só tinha banana, pimenta e açúcar. O pão de manhã eram torradas secas, sem manteiga nenhuma. Lá não havia, ela me disse. Fazia compra uma vez por semana no grande mercado público. Tinha o básico. Vez por outra faltava sal por um período, em outros faltavam outros produtos. O vaso sanitário não tinha a tampa. Se eu soubesse teria levado uma para ela. Fui despreparada. Não sabia que encontraria aquele cenário. Aliás, em todas as casas de cubanos que fui, percebi que os banheiros todos eram assim, com o vaso só na cerâmica. O banho era frio. No banheiro reparei que só tinha uma pedra de sabão, nada de sabonete ou shampoo. Um cano era o chuveiro. Uma vez por semana faltava luz. Lourdes era muito gentil, a noite perguntava se eu queria que ela esquentasse uma água para eu tomar banho. Mas o calor era tanto que não havia necessidade.

Fui na Casa da Música, ou Palácio da Música, não me lembro. Muito legal, um lugar lindo, prédio grande antigo. Fui com Jorge e sua namorada. Teve um show de Salsa com várias bandas, começando por uma formada por crianças pequenininhas, tocando percussão. Uma graça. Tomamos rum, dançamos, foi maravilhoso. Nos dias que estive lá, comemos bem. Levava eles para almoçar fora, numas casas que cozinham para turistas, lagostas e outras delícias. Também conheci uma cidadezinha no interior, San Antonio de Los Bãnos, onde fica a Escola de Cinema. Alto nível. Gente do mundo todo. Na verdade eu tinha ido a Cuba para fazer um curso de um mês em Los Bãnos, mas acabei resolvendo voltar com a Lourdes para Havana. Minha cabeça não estava legal para ficar.

No dia de voltar para o Brasil, fui embora de Cuba quase só com a roupa do corpo. Deixei tudo para Lourdes. Roupas, perfume, shampoo, cremes, tinta de cabelo e tudo que achei que valia à pena deixar. Para mim foi uma viagem inesquecível, que mudou minha cabeça. E acreditem, não foi para o mal. Não fiquei chocada ou com raiva do governo Cubano. Mas acho  sim que já passou da hora de mudar. O regime precisa abrir mesmo, dar liberdade para as pessoas. Porém senti claramente que eles amam o Fidel e ninguém fala mal dele. Todo mundo sabe como ficam as ruas quando ele discursa (ou discursava). Tudo pára. As pessoas se agromeram aonde tiver uma televisão. Eles o amam. Deve haver, um outro lado, não? Quem viveu lá antes da entrada de Fidel, lembra que o país tinha se transformado em um parque de diversões dos EUA. Por isso eu acho que é muito difícil criticar Cuba. Mas enfim, debater sobre o Fidel não é meu interesse neste post. Quem sabe num próximo.

Queria apenas dizer que esta foi a viagem mais importante da minha vida. Aprendi coisas que nem sei explicar. Valores humanos que jamais veria em outro lugar. Fui ao Malecon, escrevi meu nome na parede da Bodeguita Del Médio, visitei prédios, monumentos, museus. Fiz os passeios turísticos todos (só não fui a Varadero). Mas o mais importante para mim foi conviver com os cubanos. Não sei como eles estão hoje. Talvez alguém leia este texto e diga que foi lá e não viu nada disso. Acho que quem fica hospedado num hotel não percebe algumas coisas.

Parti com saudade e gostaria de voltar. Não achei triste nem sai criticando. Juro. Não sei explicar ao certo o porquê. O sistema de saúde é muito bom. Não existem analfabetos, enfim, mas não foi por isso que eu sai com vontade de defender Cuba. Algo muito subjetivo mexeu comigo. Faz mais de dez anos que estive lá. E acho que ainda não elaborei tudo que vi. Sei que não pude enxergar as coisas de um lado só. Até hoje me emociono quando assisto o documentário “Buena Vista Social Club” e vejo aquelas imagens das ruas de Havana, como uma cidade pós-guerra, tudo muito velho e destruído, em contraste com os carros de milionários.

A felicidade deles é intrigante. E verdadeira. Mesmo sabendo que seus carros velhos, suas geladeira, nada é no nome deles (tudo é do governo), mesmo sabendo que um médico ganha o equivalente a 20 dólares, mesmo vendo um cenário que as vezes parece de filme de época. Mesmo vendo que eles guardam qualquer pedacinho de papel pra usar, porque lá falta tudo. Mesmo assim não dá pena nem revolta. Estando lá a gente entende. Não sei explicar como. É uma visão romântica? As coisas mudaram muito em dez anos? Não sei. Mas por favor, me entendam. Amei Cuba e acreditem, gosto do Fidel também.

 


No INSS

 

 

Cheguei no INSS muito cedo para conseguir uma senha. Sentada aguardando minha vez, fiquei observando as pessoas que atendiam e as que estavam sendo atendidas. Os funcionários do INSS com cara de mau humor (todos eles, é impressionante, será que eles fazem um treinamento para serem assim?) e os clientes ou interessados sei lá, ansiosos, tentando explicar sua situação para alguém que não quer ouvir. Enfim chegou minha vez e eu me desliguei do ambiente e me concentrei no meu caso. Disse bom dia para o cara que me atendeu. Como eu já estava meio chocada com o desprezo de todos, falei um bom dia num tom que não deu para ele ignorar. Ele olhando para o lado e batendo repetidamente a ponta de uma caneta Bic na mesa, respondeu mal humorado, bom dia. Percebi um clima de, fala logo. Eu expliquei que tinha tentado no dia anterior tirar pela internet uma guia de um recibo para pagar, mas que como era de 2006, o novo site não aceitava mais. Falei também que liguei no 135 e a moça me informou que realmente não tinha mais como tirar pela internet e que eu deveria comparecer pessoalmente numa agência do INSS para conseguir resolver. Ele olhando pra ponta da caneta que continuava a bater na mesa, respondeu: não tem jeito não. Eu não entendi. O que que não tem jeito? Não tem jeito ele falou de novo. Claro que tem jeito eu rebati. Imaginei, se eu fosse um velhinho, humilde, ia ficar sem graça ou com medo, então ia levantar, agradecer e ir embora, como muitos fazem quando não entendem a situação. Mas, decidi ir a fundo. Pensei: se eu quero pagar um imposto antigo, claro que tem jeito, eu quero pagar, com multa, juros, mora, correção seja como for, preciso deste imposto pago, ou então o Estado vai me processar. Ele disse então: só tem um jeito de conseguir esta guia para pagar: se a senhora mandar um ofício. Ah, então tem jeito, falei. Mandar um ofício para quem? Pro INSS, ele respondeu pela primeira vez olhando pra mim e com uma cara impaciente. Sim, então eu falei, vamos passo a passo, por favor, me dê um papel. E fui perguntando, ofício em nome de quem, ele respondeu, qual conteúdo, ele falou resumidamente, entrego aonde, ele disse, protocola aonde, em tal lugar. Quando perguntei em quanto tempo tinha a resposta ele teve a cara de pau de dizer: não tem prazo não. Como não moço? Um mês, dois, três, pode passar de seis meses? Ele disse não, não passa de três meses. Ah então tem um prazo, conclui eu em voz alta para ele. Quis saber como eu ficava sabendo quando ficasse pronto. Ele disse: não tem como saber. Eu perguntei já com ódio, eu vou ter que vir aqui todo dia olhar pra sua cara pra saber se está pronto? Ele disse, não, eles ligam. Eles quem moço? O INSS avisa ou se não ligarem a senhora procura pelo site. E por aí foi. Bom, minha vontade foi levantar e mandar ele para aquele lugar, mas eu ia armar um bate boca, ia ser uma baixaria, por que eu estava irritada com tudo. Além do mais eu precisava descobrir o que fazer, arrancar todas as informações daquele louco para conseguir resolver meu problema. Não seria bem fácil, depois de dar bom dia, ele chegar e dizer: sim senhora, agora o INSS não libera mais pelo site, mas a senhora manda um ofício em nome do departamento tal, solicitando isso e isso, que no máximo em 90 dias alguém vai lhe retornar por telefone ou a senhora acompanha pela internet através de um procotolo que eu vou lhe dar. Em cinco minutos eu estaria liberada, ele também e o problema estaria resolvido. Resultado: sai de lá com indigestão daquele atendimento. E felizmente consegui resolver meu problema de outra forma, porque se eu tivesse que voltar lá, talvez saísse presa.


Pele Vermelha

 

Hermeto e Raoni

Raoni, Minc e Príncipe Charles

Raoni e Sting (por mais que duvidem a amizade é verdadeira)

 

Minha ligação com  índios vem de criança e de diversos lados. Aliás, vem de outras gerações. Não é aquela sensação teórica que todo brasileiro tem, de saber que existe índio na sua árvore genealógica, mesmo que distante. Isso todos nós, de certa forma, temos. Há cerca de dois anos atrás, o cacique Raoni estava no Congresso Nacional assistindo uma sessão no Plenário. No intervalo ele pediu a palavra. Um compadre meu foi incumbido de traduzir aos deputados o que ele dizia. O pedido foi feito pelo próprio Raoni, que se expressa melhor em caiapó e confia piamente no meu compadre, que o acompanha há muitos anos. E ele foi direto à questão: “Vocês brancos, acham que são descendentes de índios, que o europeu chegou aqui e casou com a índia, fez carinho na índia, cuidou da índia. Não, vocês são filhos de índias prostituídas ou índias estupradas”. Quem já viu o cacique discursando em sua língua, sabe como é marcante, um verdadeiro espetáculo. Ele é um índio imponente, alto, enorme, sua postura e forma de falar são de uma força e uma vivacidade incrível. Ele fala olhando nos olhos das pessoas, transmitindo uma verdade e propriedade constrangedoras. Imaginem, naquele momento, a situação do tradutor. Ele contou, depois, que se sentiu numa tremenda saia justa. Tinha que traduzir, literalmente, as palavras do cacique. Raoni entende bem português e saberia se ele estava transmitindo ao Plenário, o que dizia. Por isso teve que traduzir tudo, sob pena de perder a confiança do cacique, seu amigo de tantos anos e lutas.

Minha família sempre conviveu com índios. E ninguém era antropólogo (hoje temos uma antropóloga na família, minha prima Lívia, que até está no Canadá fazendo doutorado e trabalhando com os índios de lá). Meus dois avôs (paterno e e materno), foram indigenistas, sem terem estudado antropologia. Meu pai, Chico Dias, foi gerado na aldeia dos Parintintins, no rio Ipixuna, nos confins da Amazônia. Meu avô trabalhava no Serviço de Proteção aos Índios (que deu origem à Funai). Assim que ele se casou com minha avó, eles foram direto para a tribo, passaram a lua de mel já na aldeia. Minha avó só saiu para dar a luz na cidade de Manaus, onde nasceu meu pai. Já o meu avô materno, que falava caiapó fluentemente, trabalhou durante mais de vinte e cinco anos com o sertanista Chico Meirelles, convivendo com caiapós, cintas-largas e outras tribos, nas aldeias. Às vezes eu acredito que, até a formação da família sofreu esta influência. Meu pai e minha mãe são primos de primeiro grau, o que ocorre muito entre índios.

Mesmo quando meus pais vieram morar em Brasília, a casa deles continuou sendo freqüentada por índios. Os xavantes, desde que eu era criança, iam e vão muito lá. Cresci vendo os caciques Apoena, Mario Juruna, Aniceto, Zé Maria, seus filhos e parentes, almoçando em minha casa. Eles batizaram meu irmão Pedro com um nome xavante: Rôá. A prática continuou com os netos. Minha filha também foi batizada. É chamada por eles de Batãué. Meu pai sempre usa nos punhos aquelas cordinhas que os xavantes tem nos braços. E parece que os índios sabem quando está para cair, pois sempre aparece um em sua casa com uma nova, pra trocar. E a cada troca a gente percebe que há um novo ritual de renovação da amizade. Existe uma identificação dele muito grande com os índios. Ele diz que seu anjo da guarda, ou espírito protetor, é um índio, identificado em dois terreiros diferentes, quando fazia uma matéria sobre umbanda. Duas entidades, em locais distintos, lhe disseram a mesma coisa: que havia um índio ao seu lado, sempre, lhe protegendo.

Quando Raoni está em Brasília eu gosto muito de encontrá-lo. Meu compadre já sabe. Ou a gente combina um almoço na minha mãe, um passeio no zoológico ou outro programa qualquer que ele goste. É um momento importante pra mim, de ficar ao seu lado, de mão dada, passear e pegar um pouco da sua pureza, verdade, bondade e força. Me sinto abençoada com sua presença, seu olhar doce, seu sorriso e sua história fascinante. Em 2006 fez sessenta anos que Raoni teve contato com o branco, através dos irmãos Vilas Boas. Ele não sabe a idade que tem. Achamos que tem mais de oitenta (índios não comemoram aniversário nem contam seus dias). De fato o cacique Raoni é uma liderança que tem uma presença impressionante. Respeitado por grandes Chefes de Estado e conhecido mundialmente. Os almoços na casa da Elza Fiuza e do Chico Dias com o Raoni são divertidos. Em um deles um amigo produtor estava com o Hermeto Pascoal. O cacique nunca tinha visto um albino, eu acho. Ficava meio que apalpando  o Hermeto como se não entendesse do que ele era “feito”. Foi um encontro muito interessante.

Com tantas outras influências e contatos, com outras aldeias e etnias, hoje me sinto uma índia branca. Certa vez vi índios Krahôs, que participavam de um projeto cultural, deitados no chão. Eram mães com bebês, dormindo emboladas num piso de terra vermelha. Observei elas sem que me vissem. Uma cena de amor instintivo, primário, natural, meio animal mesmo, como somos.  Me identifiquei. Também gosto de dormir assim com Helena deitada, abraçada, enroscada, sem blusa. Quando ela era nenenzinha, eu só não mastigava a comida e dava para ela comer, como fazem alguns índios porque iam achar realmente muito estranho. Mas ela mamou até os três anos. E da mesma forma que os índios, sou uma simbiótica assumida. Que se danem as teorias européias ou sei lá de onde, que cultuam o individualismo. Eles que fiquem com a frieza deles e cresçam egoístas. A casa dos meus pais é como uma grande oca. Cheia de agregados que se amam e gostam de conviver juntos. Só somos felizes assim, grudados, numa convivência intensa. Como os índios.

 


Eram as nossas árvores

 

gravura O Pequeno Príncipe

 

Quando estávamos lá em cima, o tempo passava despercebido. Eram três as nossas árvores favoritas. Todas enormes e frondosas. Uma ficava atrás da casa dos meus pais, tinha folhas enormes e duras (era uma daquelas árvores que têm vários cipós e uma raiz alta que vai longe). As outras, eram dois Flamboyants. A da casa da minha mãe, foi cortada para ceder espaço ao comércio. A TV Globo foi acionada e os adolescentes da quadra (que brincaram nela na infância) fizeram uma roda ao redor dela, foi um chororô danado pra não cortarem. Em vão. Claro que cortaram. As outras duas vivem até hoje e ficam no canteiro entre duas ruas, também na 716 norte. Quando eu morei num prédio lá perto, depois que minha filha nasceu, eu passava por elas quando ia pra casa da minha mãe. Olhava a minha preferida e a admirava. Mentalmente lhe cumprimentava, íntima. Adoro aquela árvore. Ela é boa de subir. E naquela época essas árvores tinham uma parte baixa, no tronco, perfeita pra apoiar o pé e pegar embalo na subida. Já eram enormes. Hoje são gigantes. Alternávamos entre as três árvores. Eram nossos “points” da tarde, depois da escola. Era batata. Eu chegava da aula almoçava e ligava pra Cecília, minha vizinha, amiga mais antiga, amizade que dura até hoje. “Ciça to indo pra árvore tal”. Em minutos ela chegava. Minha irmã mais nova, Vânia, também era freqüentadora assídua, íamos juntas. Muitas vezes eu levava meus cadernos e fazia o dever lá em cima. As vezes brincávamos de casinha, cada uma morando numa, ou as três numa só, cada galho um quarto. A Flamboyant tem aquela vagem grande marrom onde ficam as sementes. Eram nossos telefones. O formato perfeito. Outras vezes ficávamos lá, sentadas à toa. Tardes e tardes. Pegando um ventinho, batendo papo. Cada uma de nós tinha seus galhos preferidos. Às vezes subíamos até quase o topo, bem alto. E sabe que a gente nem tinha medo. Para nós, era como se elas falassem: “Fiquem tranqüilas meninas, que daqui vocês não caem”. E nunca nenhuma de nós três caiu, nem pensávamos nisso. Nossos pés pareciam ficar aderentes aos galhos. Eram largos e com uma textura boa de pisar. Ao redor sempre tinham galhos finos que a gente ia se segurando. Bom demais. Era aquela sensação de esquecer do mundo. Elas nos davam muito bem estar aquelas árvores. As vezes passava um menino ou outro da nossa idade, da rua mesmo, nossos amigos da quadra. E subia um ou mais e a árvore ficava lotada, com a molecada em peso. Fim de semana, na hora do almoço a gente subia até com o prato na mão, na que ficava no jardim da minha mãe. Almocei em cima dela várias vezes. Hoje o jardim é pequeno. Foi divido pela metade. A área onde tinha nossa árvore era pública e lá agora existe um asfalto e comércio. Minha filha as vezes sobe em um pé de tangerina no jardim da vó. E se pendura no galho. Mas não é igual a subir numa árvore frondosa, grandona, imponente. Quando eu saio de carro com meu marido dirigindo, vou olhando as árvores nas ruas. E analisando mentalmente com olho crítico: “Essa é boa de subir. Essa não. Nossa, essa é ótima”.

Gostaria que Helena subisse em uma destas. Mas hoje tudo está diferente. O Flamboyant não dá mais pra subir. Ficou gigantesco, o tronco reto, liso e muito alto. Não tem mais apoio. Mas a ainda é uma árvore maravilhosa, acolhedora, aconchegante, refresca os passarinhos e quem passa por ali. Na minha casa nova eu plantei ipê, jaboticaba, limão, laranja e manga. Mas o Giordano, um amigo otimista já me desanimou. “Quando a Helena tiver adolescente, vai poder subir numa delas. Ou talvez seus netos”.


A cura pela escrita.

 

Marc Chagall

 

Era noite e ela voltava para casa. Passou a pé na frente de sua antiga sala. Parou na porta de vidro pelo lado de fora. Dentro tudo escuro. Estava sozinha e ficou alguns minutos ali, espiando. Tudo tão diferente. Não dava pra saber o que funcionava naquele enorme espaço agora. Outros móveis. E várias divisórias de cor bege. De repente ouviu um barulho nostálgico. Ficou se lembrando dos encontros naquele lugar. Das festas. Começou a ver e recordar. Os projetos, os sonhos, as pessoas andando, indo para o subsolo, entrando por trás, saindo pela frente. Lembrando daquele grande vão ventilado, iluminado e alegre. Ouvia as músicas dentro de sua cabeça. Depois viu o dia a dia. Visualizou as mesas, os enfeites coloridos, as estantes, os livros e ela trabalhando em seu computador. Lembrou de tantas pessoas que passaram por ali. Muitos sonhos, poucas realizações à altura. Faltou planejamento? Dinheiro? Experiência? Pois coragem ela tinha. E ainda tem.

Em pé, parada diante da sala, chorou calmamente. Um misto de saudade, com tristeza, emoção, alegria e alívio. Como algo tão presente pode se tornar ao mesmo tempo tão distante? Era mesmo um sonho difícil de realizar. Jamais conseguiria manter aquela estrutura com a maturidade que tinha. Ou se sustentava ou sustentava aquilo. Estava tudo misturado! No final de tudo estava sem vontade. Não sabia, mas, já não queria mais. Morreu o desejo. Deixou muita coisa pela metade, por este motivo (e ela sabe disso). Tudo porque não disse pra ela mesma e pros outros: não quero mais. Estou sem vontade. Quero fazer algo meu. Isto não me pertence mais. Quero outra coisa. Esta foi a coragem que lhe faltou. As pessoas ao seu redor tinham expectativas.

Mas além do cansaço daquele final, além do transtorno psicológico de arcar com o encerramento de tantas empreitadas realizadas capengamente e em meio ao caos, hoje ela sabe que o que a derrubou não foi isto. Foi apunhalada pelas costas. Como muita gente é. Naquela época ela própria já não sabia direito quem era. Nem como se defender ou atacar. Também não sabia ao certo o que queria.

Tinha apenas algumas certezas. Sabia que amava o movimento, a transformação, que queria unir as pessoas, crescer e concretizar algo. Mas no final de tudo, quando já estava exausta, ainda ouviu que não era ninguém. E acreditou. Ela se recorda daquele dia quando engoliu isto: “Você é uma farsa. Nada disso foi construído com o seu esforço, nenhum mérito é seu. Você não tem capacidade. Nada do que você fez deu certo.” E ouviu muito mais. Era como se seu passado não existisse pois naquele momento, literalmente não tinha construído nada. Não conseguia identificar o que tinha de concreto. Nem sua capacidade de amar, de aglomerar pessoas, de unir, enfim, nada lhe valia. E toda sua dedicação? E seus anos rebocando pessoas, confiando, se dando, aprendendo e até ensinando? De nada lhe serviu. Alguém lhe falou e ela ouviu. As vezes acontece. Vem alguém e te tira o chão, te derruba. São ladrões de luz como diz minha amiga Flávia. Naquele momento sentiu vergonha das pessoas, se sentiu ridícula. Depois disso fez um corte brusco e até inconsciente com seu passado.

Então, naquela noite, ali quieta, tentou equilibrar ou pesar as coisas em sua cabeça. Lembrou que, por outro lado, teve sorte de ter algumas inesquecíveis pessoas que a ajudaram organizar a bagunça que restou. Pessoas que lhe deram amor e uma outra visão da situação. Ainda bem que os anos passam. E, de fato, o tempo cura tudo. Este não é um chavão mentiroso. Faz a gente se perdoar e se permitir. Isto aconteceu com ela. Se reconheceu, se olhou no espelho e se viu. Sem ninguém ao redor, sem chupins, sem aplausos ou vaias. Hoje ela pensa que talvez nunca tenha sido aquela pessoa. Esta nova pessoa se parece mais com ela.

Agora constrói um delicado presente. Este real.

 


Viva as diferenças

 

toy art

 

“Tamanho é documento. As crianças estão cada vez mais altas. E as baixinhas se sentem mais deslocadas. A boa notícia é que há tratamento para o crescimento abaixo da média.”   Prestem bem atenção ao título desta matéria da revista Veja.  Será que a jornalista (Juliana Linhares) que escreveu é baixinha? Com que propriedade ela diz isso? Eu observo todo dia as crianças na escola da minha filha.  São crianças de todos os tipos.  Altas, baixas, negras, brancas, magras, gordinhas, japonesas, albinas, tem umas quatro de cadeirinha de rodas, umas de óculos (alguns daqueles bicolor), umas grandonas com jeito de bebezões, outras miudinhas, umas de cabelos desgrenhados, presos rápido por mães apressadas, outras bem arrumadinhas com muitas presilhas na cabeça, de todas as cores. Com bonés, sem bonés, meninos de cabelos maiores, moicanos, franjinhas, cabeças raspadas. Uns tímidos, outros correndo expansivos. São, como cada ser humano é: único. E por mais que seja uma escola particular, que eles usem uniforme, eu não sinto uma padronização. Elas brincam juntas e sem serem iguais. Na adolescência eles deverão procurar seus “tipos” para formarem suas tribos, o que é natural na idade. Mas enquanto pequenos, eles estão misturados e a escola tenta quebrar os preconceitos. A Época fez uma matéria sobre corpos biônicos. Pessoas que tem alguma deficiência, mostradas como normais, ou melhor, diferentes, mas com seu lugar no mundo. A capa era uma bela moça sorridente, de saia, sentada de pernas cruzadas, mostrando uma das pernas mecânica. Meu sobrinho viu a foto da capa lá em casa e disse para o pai “papai eu quero uma desta”. O pai explicou “não João, ela vive bem, está feliz, mas ainda é melhor ter a nossa própria perna”. Foi uma conversa até longa com ele e minha filha, que estava junto e participou. Vimos a inocência e a naturalidade como as crianças aceitam as diferenças. Bem, voltando à reportagem da Veja, aí vem esta moçoila e diz que as crianças baixinhas se sentem deslocadas e podem se tornar complexadas. Acho que talvez uma criança que está num clima de conflitos, brigas ou uma criança obesa sem energia pra correr, enfim, situações reais de problema, possam fazer uma criança se sentir deslocada. Mas não é natural da criança, baixinha ou altinha, se sentir menosprezada, a não ser que isto esteja sendo afirmado e aceito como verdade. Isso pode acontecer (e infelizmente acontece) com uma criança negra. Pois esta briga ainda não está ganha. Gente, eu sou baixinha. Eu tenho um metro e cinquenta. Minha mãe tem três centímetros a menos que eu e minha irmã quatro a mais. E se por algum motivo a gente se sentiu deslocada em algum momento de nossas vidas (o que pode acontecer com qualquer pessoa), com certeza não foi pela nossa altura. Eu por exemplo, me sinto super deslocada quando leio todas as matérias da Veja. Aliás, nem sei por que assinei esta revista.

Disse um dia Fernando Pessoa:  Sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura.


Cabeça de criança

    Diego Velázquez     

 

Então Chico Dias falou pra Helena, sua neta de seis anos:

_ Hoje vai vir uma senhora aqui em casa que eu conheço há muitos anos e quero que ela conheça você Helena. Ela foi empregada na minha casa antes d´eu casar.

Ela rebateu na hora:
_ E você é casado?

E Chico Dias:
_Sou!

Ela chocada:
_E com quem?

Ele, também pasmo com a pergunta dela, respondeu;
- Com a sua vó!

Ele conta que Helena colocou a mãozinha na boca, arregalou os olhos e concluiu num suspiro:
_ Eu não acredito!


Pra quê um arquiteto?

Escher

Mudamos pra casa nova e elencamos tudo que precisaríamos: uma churrasqueira, um fogão à lenha, um quarto de hóspede e mais um banheiro. Desenhei, desenhei, desenhei. Mil hipóteses que quase tiram meu sono. De madrugada vez por outra acordava pensando, ah achei a solução. Faço assim, faço assado. Pensava ansiosa, até pegar de novo no sono. No carro eu imaginava outra coisa. A idéia da noite anterior (que eu até desenhei no dia seguinte) não era ideal, ocuparia muito espaço. Penso em outras formas, não sei, mas sabe quando você sente claramente que ainda não achou a solução? Aí veio um amigo antigo que por coincidência virou nosso vizinho (aliás nós viramos vizinhos dele). O Pedro Daldegan, arquiteto. Num bate papo descompromissado trouxe idéias simples e criativas. Ouviu o que a gente queria e sugeriu. Gente como é fácil, era exatamente isso que eu queria! Pra que quebrar isso, aproveita aquilo, esse fundo assim é bom, ventila, a sua outra idéia tal não funciona. Pronto. Resolveu. Fizemos tudo. Acabou a obra inicial, ufa. No sábado passado veio a sogra da minha irmã aqui em casa. Minha amiga Batta. Fina. Muito querida. Eu me queixei à ela que nossa única insatisfação com a casa é com a sala, que de fato é pequena. Ela como arquiteta experiente também me ouviu. E sugeriu. Esta sala toda de tijolinho está muito contrastada com a cozinha americana, toda branca, clara, moderna e clean. Estão brigando. A cozinha parece muito maior que a sala. Se você tampar o tijolinho com massa e pintar toda a sala de branco, vai dar uma harmonizada, ampliar e clarear. Coragem Joana cobre um pouco deste tijolinho, tem muito na casa, vai até realçar o restante (tipo me acalmando pra eu ter coragem de tampar o tijolinho). Eu adoro tijolinho (ela dizendo), na minha casa tem em várias partes, mas muito assim cansa. Escurece. Diminui. Meu irmão Pedro Praia estava na visita e entrou na conversa (ah ele é estudante de arquitetura) a qual ele acompanhava atentamente. Complementou, puxa sua parede até aqui, você ganha quase dois metros (é fácil de fazer) muda a porta pra esse lado de cá e você resolve sua entrada, continua com um abrigo pra chuva e ganha uma parede e mais um pedação pra sala. Nossa que maravilha. Eu que estava querendo derrubar um quarto de dentro. Perder um quarto pronto, imagina que burrice. Eles resolveram de novo, estes danados! Quando der um fôlego vamos fazer. Estas visitas de amigos arquitetos são boas demais! Estou ficando fã desse povo. E eu hoje penso, como ainda tem gente que tem coragem de dizer que dá pra fazer uma casa inteira sem pagar um arquiteto? Putz, é um investimento tão importante quanto comprar boas telhas ou fazer uma laje. Saquei tudo.


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