Era uma vez um jovem senegalês

Bandeira do Senegal

Thierni Guey era um jovem africano, senegalês. Magrelo e alto. Tinha uma voz rouca e alta e quando ia nos visitar seu português com sotaque francês ecoava pelos cômodos. Sabíamos que o Guey tinha chegado. Bem humorado, muito carinhoso chamava os filhos dos meus pais de filhos. Ele chegava e perguntava para o adulto que abrisse a porta “cadê meus filhos?”. Dizia pra mim, Vânia e Marina “Oi minhas filhas” e pro Pedro “oi meu filho”. Em tom mesmo paternal. Gostávamos muito dele. Meu pai o conheceu na casa do jornalista Carlos Castelo Branco, foi apresentado por ele com honras da casa. Nas festas da Embaixada do Senegal e de outras embaixadas que ia com meus pais, de quem se tornou um grande amigo, era tratado como príncipe. Falava seis idiomas, era muito culto, tinha mestrado e doutorado em Ciências Políticas e assessorou grandes nomes, dentre eles Gilberto Freire. Jogava futebol com laranja. Era divertido. Conversava em várias línguas hipnotizando as crianças. Crescemos com sua presença vez por outra em nossa casa. Quando nos tornamos adolescentes, Guey apareceu morto de forma trágica em Santa Tereza no Rio de Janeiro, assassinado a facadas. Alguém ligou de lá e deu a notícia pros meus pais. Antes disso estava já vivendo de forma decadente, quase que morando nos bares de Brasília. Ficou irreconhecível. Uma fase feia de sua vida não merece destaque em vista de sua linda pessoa e biografia. Guey deixou muita saudade.

Sobre joanapraia

Sou eu. Joana Praia Fiuza Dias Pinto Rocha. Nome grande porque valorizei a história de todos e não consegui cortar nenhum. Cada um deles se parece um pouco comigo, um pedaço de alguém. “Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.” Trecho do conto A Moça Tecelã de Marina Colassanti Ver todos os posts de joanapraia

Uma resposta to “Era uma vez um jovem senegalês”

  • Flávia Magalhães

    Jan, não me lembro se eu cheguei a conhecê-lo, o Guey.
    Ele sem dúvida gostou da sua homenagem.
    Bisu, ma chère amie.

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