Thierni Guey era um jovem africano, senegalês. Magrelo e alto. Tinha uma voz rouca e alta e quando ia nos visitar seu português com sotaque francês ecoava pelos cômodos. Sabíamos que o Guey tinha chegado. Bem humorado, muito carinhoso chamava os filhos dos meus pais de filhos. Ele chegava e perguntava para o adulto que abrisse a porta “cadê meus filhos?”. Dizia pra mim, Vânia e Marina “Oi minhas filhas” e pro Pedro “oi meu filho”. Em tom mesmo paternal. Gostávamos muito dele. Meu pai o conheceu na casa do jornalista Carlos Castelo Branco, foi apresentado por ele com honras da casa. Nas festas da Embaixada do Senegal e de outras embaixadas que ia com meus pais, de quem se tornou um grande amigo, era tratado como príncipe. Falava seis idiomas, era muito culto, tinha mestrado e doutorado em Ciências Políticas e assessorou grandes nomes, dentre eles Gilberto Freire. Jogava futebol com laranja. Era divertido. Conversava em várias línguas hipnotizando as crianças. Crescemos com sua presença vez por outra em nossa casa. Quando nos tornamos adolescentes, Guey apareceu morto de forma trágica em Santa Tereza no Rio de Janeiro, assassinado a facadas. Alguém ligou de lá e deu a notícia pros meus pais. Antes disso estava já vivendo de forma decadente, quase que morando nos bares de Brasília. Ficou irreconhecível. Uma fase feia de sua vida não merece destaque em vista de sua linda pessoa e biografia. Guey deixou muita saudade.

21 fevereiro, 2010 no 4:23 am
Jan, não me lembro se eu cheguei a conhecê-lo, o Guey.
Ele sem dúvida gostou da sua homenagem.
Bisu, ma chère amie.