Pra quê um arquiteto?

Escher

Mudamos pra casa nova e elencamos tudo que precisaríamos: uma churrasqueira, um fogão à lenha, um quarto de hóspede e mais um banheiro. Desenhei, desenhei, desenhei. Mil hipóteses que quase tiram meu sono. De madrugada vez por outra acordava pensando, ah achei a solução. Faço assim, faço assado. Pensava ansiosa, até pegar de novo no sono. No carro eu imaginava outra coisa. A idéia da noite anterior (que eu até desenhei no dia seguinte) não era ideal, ocuparia muito espaço. Penso em outras formas, não sei, mas sabe quando você sente claramente que ainda não achou a solução? Aí veio um amigo antigo que por coincidência virou nosso vizinho (aliás nós viramos vizinhos dele). O Pedro Daldegan, arquiteto. Num bate papo descompromissado trouxe idéias simples e criativas. Ouviu o que a gente queria e sugeriu. Gente como é fácil, era exatamente isso que eu queria! Pra que quebrar isso, aproveita aquilo, esse fundo assim é bom, ventila, a sua outra idéia tal não funciona. Pronto. Resolveu. Fizemos tudo. Acabou a obra inicial, ufa. No sábado passado veio a sogra da minha irmã aqui em casa. Minha amiga Batta. Fina. Muito querida. Eu me queixei à ela que nossa única insatisfação com a casa é com a sala, que de fato é pequena. Ela como arquiteta experiente também me ouviu. E sugeriu. Esta sala toda de tijolinho está muito contrastada com a cozinha americana, toda branca, clara, moderna e clean. Estão brigando. A cozinha parece muito maior que a sala. Se você tampar o tijolinho com massa e pintar toda a sala de branco, vai dar uma harmonizada, ampliar e clarear. Coragem Joana cobre um pouco deste tijolinho, tem muito na casa, vai até realçar o restante (tipo me acalmando pra eu ter coragem de tampar o tijolinho). Eu adoro tijolinho (ela dizendo), na minha casa tem em várias partes, mas muito assim cansa. Escurece. Diminui. Meu irmão Pedro Praia estava na visita e entrou na conversa (ah ele é estudante de arquitetura) a qual ele acompanhava atentamente. Complementou, puxa sua parede até aqui, você ganha quase dois metros (é fácil de fazer) muda a porta pra esse lado de cá e você resolve sua entrada, continua com um abrigo pra chuva e ganha uma parede e mais um pedação pra sala. Nossa que maravilha. Eu que estava querendo derrubar um quarto de dentro. Perder um quarto pronto, imagina que burrice. Eles resolveram de novo, estes danados! Quando der um fôlego vamos fazer. Estas visitas de amigos arquitetos são boas demais! Estou ficando fã desse povo. E eu hoje penso, como ainda tem gente que tem coragem de dizer que dá pra fazer uma casa inteira sem pagar um arquiteto? Putz, é um investimento tão importante quanto comprar boas telhas ou fazer uma laje. Saquei tudo.


Era uma vez um jovem senegalês

Bandeira do Senegal

Thierni Guey era um jovem africano, senegalês. Magrelo e alto. Tinha uma voz rouca e alta e quando ia nos visitar seu português com sotaque francês ecoava pelos cômodos. Sabíamos que o Guey tinha chegado. Bem humorado, muito carinhoso chamava os filhos dos meus pais de filhos. Ele chegava e perguntava para o adulto que abrisse a porta “cadê meus filhos?”. Dizia pra mim, Vânia e Marina “Oi minhas filhas” e pro Pedro “oi meu filho”. Em tom mesmo paternal. Gostávamos muito dele. Meu pai o conheceu na casa do jornalista Carlos Castelo Branco, foi apresentado por ele com honras da casa. Nas festas da Embaixada do Senegal e de outras embaixadas que ia com meus pais, de quem se tornou um grande amigo, era tratado como príncipe. Falava seis idiomas, era muito culto, tinha mestrado e doutorado em Ciências Políticas e assessorou grandes nomes, dentre eles Gilberto Freire. Jogava futebol com laranja. Era divertido. Conversava em várias línguas hipnotizando as crianças. Crescemos com sua presença vez por outra em nossa casa. Quando nos tornamos adolescentes, Guey apareceu morto de forma trágica em Santa Tereza no Rio de Janeiro, assassinado a facadas. Alguém ligou de lá e deu a notícia pros meus pais. Antes disso estava já vivendo de forma decadente, quase que morando nos bares de Brasília. Ficou irreconhecível. Uma fase feia de sua vida não merece destaque em vista de sua linda pessoa e biografia. Guey deixou muita saudade.


Ele também usava

Pablo Picasso

Ganhei um Moleskini da minha mãe. Segundo ela falou orgulhosa “e de folhas grossas”. Ainda não li a estória dele, num folhetinho que vem dentro em várias línguas. Quando ela disse o nome eu achei que não conhecesse. Mas ao me dar aquele caderninho de bolso, de capa dura preta, com folhas num tom envelhecido, que fecha com um elástico preto, me lembrei que já vi pessoas legais usando. Me veio um clima de Europa. Minha mãe, muito engraçada, disse que o Picasso usava. Pelo preço, eu pensei, vou escrever a lápis para depois poder apagar. Falei isso pra minha mãe e ela disse: “Que é isso menina. Não é pra fazer lista do dia a dia. É pra você deixar na bolsa e ir fazendo anotações das coisas que achar interessante”. Logo me lembrei do Blog que criei há um mês. Ele estava em fase de elaboração e a Flávia, minha amiga, mesmo assim o divulgou. Vazio, claro. Logo recebi uma mensagem do meu primo Gabriel “Juju, sua cachorra, abre um blog e nem avisa”. Algo assim. Hahahaha. Agora abri Gabi. Ou crie, sei lá, inaugurei. Tenho um amigo querido e que eu respeito muito profissionalmente que comentou uma vez que detesta blog. Que todo mundo tem blog, os amigos divulgam, pedem para ele ler, mas ele, não tem tempo. Ou saco. Mas já outra amiga amada disse, Joana, abre um blog. Pra treinar a comunicação com os outros, pra praticar a escrita, pra enfim, começar algo novo. Um novo velho. Por que eu sonhei em ser escritora um dia. Aos dezesseis anos, mais ou menos. Eu gostava muito de escrever. E ter um blog é escrever pra alguém ler, nem que seja sua melhor amiga ou seu marido. Imagine se há anos atrás eu ia poder fazer isso… Escrever um texto pra uma pessoa ler com cara de literatura e não de carta. Era um sonho. Um caminho longo, eu pensava, ah, só se for um livro, mas imagina, quanto trabalho, deixa eu crescer. Agora pra realização pessoal dos escritores quase frustrados, o blog chegou! Aliás a maravilhosa internet enfim foi inventada. E pensem bem, faz pouco tempo. Estou indo colar este post no blog. Estou doida pra ver meu primeiro texto publicado. Como disse André Luiz de Oliveira no seu primeiro filme Meteorango kid o herói intergaláxico, “este blog eu dedico aos meus cabelos” (no caso dele era o filme). E terminou assim “Me diverti pacas”.


Eu cuidarei muito bem dele, eu vou cuidar do seu jardim

  

 

Eram sete horas da manhã quando ele tocou o sino da nossa porta. Os cachorros latiram e eu lembrei que tínhamos marcado por telefone, na véspera. Era o jardineiro. Seu Brás. Meu marido pegou o cartão dele pela janela do carro, na saída do condomínio. Um carro antigo com o nome no vidro de trás, BRÁS JARDINEIRO. Demorei uns dias pra ligar. Ele entrou muito simpático, simples e bem humorado. Os pés e as unhas cor de terra mostravam que ele era realmente jardineiro e que não fazia isso com outras atividades. Ofereci um café e ele ficou parado na porta da casa, já dentro do jardim. Meu marido o convidou duas vezes pra entrar e ele acabou falando de um jeito quase pedindo, que queria ficar do lado de fora. Enfim eu saí com meu copo de café e sentei-me ao lado dele na enorme mesa da varanda. Meu marido pediu licença e entrou pois viu que a conversa entre nós dois seria longa. Antes que ele entrasse seu Brás perguntou: “Você é japonês ou maranhense mesmo?”. O Ricardo gostou dele na hora e entrou rindo. Então seu Brás abriu várias revistas destas chiques, especializadas em jardinagem. Foi me mostrando apaixonadamente as plantas e me contando os nomes. As vezes eu lia e via que ele tinha uma pronúncia própria de algumas plantas. E, lado a lado, aquele senhor foi me prendendo na conversa. Depois de olharmos umas três revistas, ele se levantou como quem diz, me siga e vamos ver como está seu jardim. Começou dizendo que apesar de gramado ter uma grama bem bonita (Esmeralda) estava judiado. Aí começou a imaginar os canteiros e a ornamentação. Deu uma parada e falou: “Seria bom a senhora pegar uma caneta e papel pra ir anotando”. Imediatamente obedeci. Então fomos caminhando pelo jardim. Fui anotando, tantas caixinhas de Érika branca, tantas de Érika roxa, tantas de Capim Nerocálio, Buchinho, tantas mudas de Papiro, Arundina, Bromélia, Estrelizia, Pata de Elefante, Capim Moréia e outras mais. Ele ia andando, me mostrando nas revistas, me explicando qual era boa pra sombra, qual funcionava no sol, qual era forte e resistente e quais eram mais frágeis. Uma verdadeira aula e consultoria. No final ele me disse com muita honestidade que pra montar meu jardim como planejamos ele levaria três dias e depois uma vez por mês pra manter. Claro, isso eu molhando direitinho. E eu pensei , meu Deus, eu chamei este moço só pra marcar dele vir cortar a grama e aparar a minha hera. Meu intuito inicial era que ele fizesse um orçamento e a gente acertasse um preço mensal, já com o primeiro dia marcado. E ele ingenuamente me fez uma consultoria e montou comigo meu jardim, igual ou melhor que qualquer paisagista. Na saída fomos com ele até um viveiro próximo de casa. Com a lista na mão fomos fazendo o orçamento e escolhendo as plantas. Ao final, pasmem, deu quase dois mil reais. Saí com o orçamento na mão, as formas de pagamento e uma promessa de ligar pro seu Brás, para realizarmos nosso sonho. Vou fazer outros orçamentos com a lista na mão. E com certeza vou trazer seu Brás para cuidar do meu jardim. Nem que seja começando só pela grama. 


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